sábado, 18 de novembro de 2017

NOISERV + PERFUME GENIUS, Festival Para Gente Sentada, Theatro Circo, Braga, 17 de Novembro de 2017

A primeira noite do festival minhoto teve ontem um final arrebatador. Começou light em versão descontraída com o projecto Noiserv de David Santos, um miúdo agora graúdo que vimos florescer num tarde soalheira de Serralves e cujo crescimento se faz notar na sofisticação dos instrumentos e recursos. Pena que tamanha parafernália, que uma câmara cimeira fez o favor de registar na plenitude no ecrã traseiro, tenha servido para tão pouco pois, apesar da boa-disposição, destreza e domínio demonstrados, as canções parecerem-nos algo desgarradas e, sem ofensas, distractivas ou não tivesse a tal transmissão instantânea contribuído para isso mesmo, entreter!
Bem mais intensa foi a perfomance de Mike Handreas, o pequeno grande artista que encarna os Perfume Genius. Aguardávamos há muito a oportunidade perfeita para confirmar ao vivo a sua aura de genialidade e o centenário recinto bracarense serviu como uma luva de veludo para a cerimónia de apresentação do seu conjunto notável e sofisticado de canções. A primazia teve óbvia escolha em "No Shape", o último de originais que, desde o início, conduziu Handreas para a frente de palco, o espaço ideal para um género de patinagem e coreografia onde o corpo flexionável e torcido jogou com o microfone num género de dança contemporânea inventiva e muito própria. Destacamos "Just Like Love" e, principalmente, "Valley" um daqueles pedacinhos de pop eternos que, embrulhado de qualquer maneira, só alguns conseguem fazer cintliar mas outras canções como "Wreath" foram interpretadas pela banda de forma surpreendente e vibrante. À fragilidade de "Normal Song" ou "Die 4 You", inesquecíveis, juntou-se por exemplo a tenebrosidade mágica de "All Waters" e o epílogo lógico em "Slip Away" fez do teatro uma verdadeira catedral em cerimónia apoteótica. A canção, aliás, mereceria a primazia de um single de vinil a condizer de forma a que o serão de ontem acabasse entre a nossa colecção devidamente benzida/assinada... No encore mais que esperado e ao piano, à boa surpresa da versão de "Kangaroo" dos Big Star que os These Mortal Coil eternizaram juntou-se uma intimidante "Learning" a quatro mãos com a ajuda do parceiro Alan Wyffels e, já com a banda em pleno, seria "Queen" a finar um grande concerto para gente de pé e feliz!

UAUU #403

FAROL #125












Era só para lembrar que os King Gizzard & The Lizard Wizard pedem a todos para descarregar de borla o seu novo álbum "Polygondwanaland", o quarto com data de 2017! A dádiva está, por isso, pronta para ser gravada e registada devidamente em vários formatos à escolha, inclusive vinil! Oupa... 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

SHARON VAN ETTEN, REGRESSO AO FUTURO!

Não, não é um álbum novo de Sharon Van Etten mas é quase como se fosse... Sexta-feira próxima estará cá fora, outra vez, o disco "(It Was) Because I Was In Love" em versão melhorada, uma prenda pré-natalícia que serve, entre muita coisa, para confirmar que as suas canções desse álbum de 2009 são maravilhosamente eternas e poderiam, sem desgaste, ter sido escritas hoje, para o ano ou em qualquer tempo futuro. Para além da via digital, a reedição terá formato físico somente em vinil e é, desde logo, uma peça de colecção que inclui um exclusivo sete polegadas! O disco pode ser na totalidade escutado por esta via, mas aqui deixamos duas das tentações.




sábado, 11 de novembro de 2017

CASPER CLAUSEN, Café Au Lait, Porto, 10 de Novembro de 2017

A atracção pela capital portuguesa para desfrutar da vida e do infindável sol não é só para grandes celebridades. Não que o dinamarquês Casper Clausen seja um desconhecido pois a fama longínqua dos Efterklang ou a mais recente experiência Liima têm na sua inconfundível voz um toque de muita classe, mas a sua estadia em Olho de Boi, Almada, nos últimos tempos tem servido para se distender a solo na composição de novas canções e sonoridades sob a capa de um tal Captain Casablanca. A ideia de trazer gratuitamente até ao Porto os primeiros resultados de tamanha aventura teve estreia num Café Au Lait cheio e pronto a sorver a partilha, um serão bem disposto e informal e onde Clausen confirmou a sua larga experiência no contacto próximo com o público e no meio do qual, microfone na mão, foi apresentando as boas novidades de teor essencialmente electrónico, tudo culminado numa agitada pista de dança. Prometedor! A tal partilha repete-se amanhã pela baixa...





quinta-feira, 9 de novembro de 2017

UAUU #402

UAUU #401

NELS CLINE com ORQUESTRA DE GUIMARÃES, Centro Cultural Vila Flor, 8 de Novembro de 2017

A abertura da 26ª edição do Guimarães Jazz contou este ano com um espectáculo inédito entre nós. O magistral guitarrista Nels Cline trouxe parte do seu quinteto a que se juntou o guitarrista português Eurico Costa e a Orquestra de Guimarães para a reprodução parcial e ao vivo do álbum "Lovers". Ao comando esteve o maestro, mas também trompetista, Michael Leonhart e o serão foi uma lição calma e quase hipnotizante de variação musical sem data nem validade, um efeito que o referido disco contempla e que, a partir da apresentação de ontem, faz ainda mais sentido e explica a atenção, por exemplo, da ecléctica "Blue Note". Não houve, obviamente, deambulações rockeiras nem sucessivas trocas de guitarras como nos habituamos a ver nos concertos dos Wilco mas Cline, mesmo sentado e espartilhado pelas pautas, demonstrou toda a sua mestria e destreza. Bons exemplos, entre outros, foram "Snare Girl" dos Sonic Youth ou o inebriante "Lady Gabor" do húngaro Gabor Szabo, peças que parecem aleatórias na escolha mas que confirmam um free-spirit talentoso só ao alcance de alguns predestinados. Um excelente concerto, que nos obriga, como se deseja, a matutar sobre o que é isso do jazz, do rock ou da improvisação e que foi o ponto de partida certeiro de quase quinze dias que se adivinham de grandes transversalidades sonoras no ano em que se comemoram cem anos sobre a gravação do primeiro registo dito jazzistico!         

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

BADBADNOTGOOD & SAM HERRING, E VÃO TRÊS!














A parceria entre os miúdos BADBADNOTGOOD com Sam Herring dos Future Islands parece ser um filão infindável. Há agora uma nova "pepita" de nome "I Don't Know" com uma orquestração tão old-school que tem tanto de clássico como de glamoroso e que nos faz suspirar por um álbum inteirinho que, no fundo, prolongue o efeito. Aqui ficam as colaborações conhecidas... para já!   





KAMASI WASHINGTON, GRANDE!















Embora não parecendo, os trinta e seis anos do saxofonista norte-americano Kamasi Washington são desde 2015, com o primeiro álbum "Epic", uma garantia de maturidade e arrojo. O jazz bem lhe pode agradecer pelo retorno carimbado do chamado "cool jazz" que atinge no novo EP "Harmony of Difference", editado pela The Young Turks em Setembro passado, um destaque e uma dependência que, nosso caso, se tornou viciante - o disco, que em vinil já virou raridade, é um portento de géneros que vai da bossa nova ao funk orquestral ou quase kitch, sempre, mas mesmo sempre, sedutor e apaixonante. As seis peças foram pensadas e compostas como uma instalação multimédia destinada à bienal do Museu Whitney de Nova Iorque, tendo a parte principal de nome "Truth" recebido a colaboração fílmica do catalão A. G. Rojas. Um hino à tal harmonia da diferença mas, acima de tudo, à paz. Grande!


sábado, 4 de novembro de 2017

TOPS, Maus Hábitos, Porto, 3 de Novembro de 2017

O tão esperado serão super-pop a cargo dos TOPS teve ontem confirmação efusiva. Em pouco mais de uma hora de grandes canções, a banda mais que rodada e bem disposta conduziu o plateia numa viagem por temas dos três álbuns até agora lançados, um compêndio assinalável de perfeição sonora que atinge no último "Sugar At the Gate" um nível sublime. O alinhamento deu-lhe primazia óbvia mas faltou, no entanto, uma das nossas perdições chamada "Seconds Erased", lacuna que talvez se possa explicar por ser dos poucos temas que não tem na guitarra a trave mestra da sua composição. Essa prioridade exagerada foi, aliás, dos poucos reparos que podemos apontar ao concerto, não deixando respirar melhor quer o baixo quer mesmo os teclados, o que não belisca, de todo, o assinalável resultado final. A simpatia dos canadianos espelhados na voz e beleza da vocalista Jane Penny ficará, por muito tempo, bem gravado na memória de todos e teve na grande versão de "Brass in Pocket" dos Pretenders a cereja em cima, ou seja, no top do bolo delicioso!







Antes, houve ainda tempo para cerca de quinze minutos de aquecimento onde Jackson MacIntosh, o baixista da banda, estreou quatro temas do álbum a solo que chegará em Janeiro e que contou em palco com a ajuda de alguns dos parceiros. Há por aqui talento de sobra que podem desde já começar a descobrir, basta só experimentar este pedacinho... 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

UAUU #400

BOWIE, UM MUNDO MODERNO!

































Estas maravilhosas fotografias foram obtidas por Denis O'Regan em 1983, ano em que David Bowie realizou a sua mais bem sucedida digressão mundial, a "Serious Moonlight Tour". Ao longo de nove meses realizaram-se noventa e nove concertos em sessenta cidades diferentes de quinze países e foram vendidos mais de dois milhões e seiscentos mil bilhetes. Em Maio de 2018 será publicado um livro de edição limitada com uma selecção destas icónicas imagens aprovadas oficialmente e que receberá o nome de "Ricochet": David Bowie 1983". Com a chancela da Penguin Random House, casa que recentemente lançou uma biografia do artista a cargo de Dylan Jones, haverá uma edição exclusiva de grande formato com o preço insano de três mil libras esterlinas! Neste nosso mundo moderno, quem se chega à frente?

JAPANESE BREAKFAST DE SECRETÁRIA!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

JOHN MAUS, Maus Hábitos, Porto, 31 de Outubro de 2017

A aparente estreia de John Maus no Porto (ok, fica a dúvida de anteriores passagens como músico do amigo Ariel Pink ou até com os Panda Bear) teve, como seria previsível, lotação esgotada. Sem conversas ou pausas, a catadupa de canções rapidamente pôs a plateia a mexer e o suor a correr, muito por culpa do forte baixo a cargo do mano Joe Maus, de um teclado gingão, da bateria certeira e da voz singular de John Maus, braços no ar incentivando ao motim. A resposta não foi das mais agitadas, mas notou-se o agrado do público perante o momento e pela proximidade proporcionada, talvez uma última oportunidade de ver o artista tão de perto antes de voos maiores que se adivinham e que, a confirmarem-se, serão inteiramente merecidos. Um concerto na hora Maus e no sítio Maus certos e onde, entre novas e velhas canções, se confirmou a força e futurismo de uma receita que contêm as doses adequadas de tradição pop e ambição sonora. Valeu!     



terça-feira, 31 de outubro de 2017

MACKAY & WALKER, SEGUNDA TENTATIVA!





















A amizade entre Bill MacKay e Ryley Walker, que tem a cidade de Chicago como terreno fertilizador, deu um primeiro fruto sonoro num disco onde o fingerpicking das guitarras assumia o comando da viagem. Entre baladas, blues e algumas trips psicadélicas, o álbum de 2015 chamado "Land of Planty" passou um pouco ao lado mas a dupla decidiu insistir na receita e, assim, um novo trabalho saiu já pela Drag City este mês de Outubro e do qual não se deve perder o rasto. Aqui ficam dois exemplos saídos de "SpiderBeetleBee", uma prova instrumental plena de tradição e talento.  



domingo, 29 de outubro de 2017

MARK EITZEL, Auditório de Espinho, 28 de Outubro de 2017

De regresso ao local do crime três anos depois, Mark Eitzel tem em Espinho um porto de abrigo notoriamente acolhedor e, certamente, inspirador. Recinto cheio e imaculado, público conhecedor e afável, praia, sol e gastronomia, incluindo as bebidas, de eleição, configurando talvez um dos poucos locais no mundo de teor tão perfeito e onde o artista se sinta "tão lá de casa" e preparado para que a sua música cumpra os desígnios certeiros de agrado, emoção e partilha. As canções foram, muitas delas, do novo e brilhante "Hey Mr. Ferryman" mas, claro, houve clássicos dos tempos dos American Music Club, principalmente a triologia imprescindível reservada para os encores - "Blue and Grey Shirt", "Western Sky" e "Firefly". Não faltou, obviamente, a dose de sarcasmo e auto-comiseração obrigatórios em apartes, tiradas e gestos desconcertantes e humorísticos mas que por vezes roçam o incómodo e o indizível e que nos conduzem, sem o querermos, à risota sobre assuntos sérios como a morte, a doença ou a dependência, algo a que nos fomos, mal ou bem, habituando de forma inconsciente ao longo dos anos nos inúmeros concertos a que religiosamente nunca quisemos falhar. Não faltou, também, algum desacerto na afinação e entrosamento da guitarra com o restante trio instrumental, mas este é, desde sempre, um daqueles clássicos factos que Eitzel ignora e que só tem desculpa na intensidade e tensão com que se entrega ao espectáculo. Não faltou, mais uma vez, o vozeirão que engrossa e fermenta cada canção e que é, por si, só uma dádiva de rareza fina que continua a agarrar-nos, sem contemplações, a cada momento de cada serão como o de ontem. Cá o esperamos da próxima vez como se fosse a primeira...       











sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PROTOMARTYR, IRRESISTÍVEIS!





















Lembramos bem a surpresa de ver e ouvir os norte-americanos Protomartyr em plena noite do Primavera Sound portuense do ano passado, uns impressionantes quarenta e cinco minutos de rudeza e força sonora fora de moda para alguns, mas cuja validade, para a maioria absorvente, deixou marcas. No novo álbum, o quarto, que saiu em Setembro sob o nome de "Relatives In Descent" não há surpresas quanto à receita escolhida - chamam-lhe sempre pós-punk - mas o paladar e consistência são agora, como alguém fez notar, ainda mais entranhantes! Pena que a futura digressão europeia de Novembro não chegue até cá. Para quem cresceu, como nós e por exemplo, com os The Sound ou os The Wedding Present, não há forma de resistir... 





Por falar nos The Wedding Present, o mítico disco de estreia "George Best" foi regravado sob o comando do mago Steve Albini em 2008, ficou a marinar à espera dos retoques até 2012 e surge agora em pleno passados trinta anos para continuar a bater forte!